26 de Sep de 2026 • 10 min de leitura
Setembro Amarelo: cuidado com a saúde mental também passa pela saúde bucal
O Setembro Amarelo amplia todos os anos o debate sobre saúde mental, prevenção ao suicídio e a importância de buscar ajuda profissional. Nesse contexto, um aspecto ainda pouco discutido merece atenção: os cuidados com a saúde bucal de pessoas que fazem uso de antidepressivos.
Esses medicamentos têm papel importante no tratamento de diferentes transtornos psiquiátricos e, quando prescritos, devem ser utilizados conforme orientação médica. Ao mesmo tempo, alguns antidepressivos podem provocar efeitos colaterais que se manifestam na cavidade bucal, como boca seca, bruxismo e apertamento dos dentes.
Para a cirurgiã-dentista Dra. Juliana Búrigo, falar sobre esses efeitos também é uma forma de promover um cuidado mais completo com quem está em tratamento.
"Saúde mental e saúde bucal não devem ser vistas de maneira isolada. O paciente pode cuidar das duas ao mesmo tempo. Conhecer possíveis efeitos dos medicamentos permite agir preventivamente, sem interromper um tratamento que é importante para sua saúde mental", explica.
Boca seca pode aumentar risco de problemas bucais
Um dos efeitos associados a determinados antidepressivos é a redução da produção de saliva, conhecida como xerostomia ou boca seca.
A saliva exerce funções importantes na proteção dos dentes e dos tecidos da boca. Quando sua produção diminui, pode haver maior predisposição a cáries, doenças gengivais, mau hálito, alterações no paladar e problemas na mucosa oral.
Alguns medicamentos também apresentam efeito anticolinérgico, interferindo na ação da acetilcolina, neurotransmissor envolvido na estimulação das glândulas salivares.
Bruxismo também merece atenção
Outro efeito que pode surgir em alguns pacientes é o bruxismo, caracterizado pelo ranger ou apertar dos dentes, inclusive durante o sono.
Quando persistente, o quadro pode provocar desgaste ou fraturas dentárias, dores musculares e sobrecarga da articulação temporomandibular (ATM).
Alguns antidepressivos, especialmente os que atuam sobre a serotonina, podem interferir em mecanismos relacionados ao controle dos movimentos e da atividade muscular, favorecendo o aparecimento ou agravamento do bruxismo em determinadas pessoas.
Cuidado integrado durante o tratamento
A boa notícia é que muitos desses problemas podem ser identificados precocemente e controlados com acompanhamento odontológico.
Consultas periódicas permitem avaliar alterações na produção de saliva, identificar sinais de bruxismo, controlar placa bacteriana e adotar medidas preventivas individualizadas. Dependendo do caso, o dentista pode recomendar aplicação de flúor, estratégias para aliviar a boca seca ou dispositivos para proteção dos dentes.
A especialista reforça, entretanto, um ponto fundamental durante o Setembro Amarelo: a presença de efeitos colaterais não é motivo para abandonar o tratamento psiquiátrico por conta própria.
"O paciente nunca deve suspender ou modificar o antidepressivo sem conversar com o médico responsável. O ideal é informar ao cirurgião-dentista quais medicamentos utiliza para que possamos adaptar os cuidados e trabalhar de forma integrada com os demais profissionais", orienta a Dra. Juliana Búrigo.
Para a especialista, o Setembro Amarelo também pode servir para ampliar a compreensão de que saúde envolve diferentes dimensões. Cuidar da mente, do corpo e da saúde bucal faz parte de uma mesma estratégia de promoção da qualidade de vida.
Cinco perguntas sobre antidepressivos e saúde bucal
1. Todo antidepressivo causa problemas na boca?
Não. Os efeitos variam conforme o medicamento, a dose e as características de cada paciente. Alguns antidepressivos, porém, estão associados com maior frequência à boca seca, ao apertamento dentário e ao bruxismo.
2. Quais sinais merecem atenção?
Sensação persistente de boca seca, aumento de cáries, mau hálito, alterações no paladar, dor ou cansaço na mandíbula, desgaste dos dentes e percepção de ranger ou apertar os dentes são sinais que devem ser relatados ao dentista.
3. É necessário parar o antidepressivo se esses sintomas aparecerem?
Não se deve interromper ou alterar o tratamento por conta própria. O médico responsável deve ser consultado caso surjam efeitos adversos, enquanto o dentista pode ajudar a prevenir e controlar suas repercussões na cavidade bucal.
4. Como o dentista pode ajudar?
Com acompanhamento periódico, orientação de higiene, controle de placa bacteriana, aplicação de flúor e medidas específicas para boca seca e bruxismo, de acordo com as necessidades de cada paciente.
5. Por que falar sobre saúde bucal no Setembro Amarelo?
Porque o cuidado com a saúde mental deve ser integral. Pessoas que utilizam medicamentos para cuidar da saúde mental também precisam conhecer possíveis efeitos no organismo e saber que existem estratégias para preveni-los e controlá-los, sem estigmatizar o tratamento.
Sobre a especialista
A Dra. Juliana Búrigo é cirurgiã-dentista especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, com mais de 25 anos de experiência. Atua em Criciúma (SC), oferecendo tratamentos com foco em segurança, precisão técnica e atendimento humanizado, baseados em evidências científicas.