10 de Aug de 2026 • 10 min de leitura
Pesquisa no Brasil investiga uso da sertralina como alternativa contra fungos resistentes a medicamentos
Pesquisadores do Brasil, vinculados à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), investigam um novo uso para a sertralina, medicamento amplamente prescrito no tratamento da depressão, transtornos de ansiedade e síndrome do pânico. Os resultados, publicados na revista científica Genetics and Molecular Biology, indicam que o fármaco apresenta atividade contra diferentes espécies de fungos de importância clínica, especialmente aquelas associadas à resistência aos tratamentos antifúngicos convencionais.
O estudo integra um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e reforça uma estratégia conhecida na pesquisa biomédica como reposicionamento de medicamentos, abordagem que busca identificar novas aplicações terapêuticas para fármacos já aprovados para uso humano.
Reaproveitamento de medicamentos acelera pesquisas
O chamado drug repurposing consiste em avaliar medicamentos já utilizados na prática clínica para outras doenças além daquelas para as quais foram originalmente desenvolvidos.
Segundo pesquisadores da área farmacológica, essa estratégia pode reduzir custos, tempo de desenvolvimento e parte das etapas relacionadas à segurança, já que esses medicamentos possuem perfil farmacocinético e toxicológico previamente conhecido. Nos últimos anos, essa metodologia tem recebido atenção crescente na busca por novas opções terapêuticas para infecções de difícil tratamento.
No caso da sertralina, o interesse científico surgiu após observações clínicas indicarem menor recorrência de candidíase em alguns pacientes que utilizavam o antidepressivo, levando pesquisadores a investigar seus possíveis efeitos sobre fungos patogênicos.
Ação ocorre em diversos mecanismos celulares
Os experimentos demonstraram que a sertralina atua de forma diferente de muitos antifúngicos tradicionais, que geralmente possuem um único alvo biológico.
De acordo com os resultados, o medicamento interfere simultaneamente em processos fundamentais para a sobrevivência das células fúngicas, incluindo a produção de proteínas, o metabolismo energético, a integridade das membranas celulares, além do processamento de lipídios e carboidratos.
Os pesquisadores também utilizaram análises genéticas em larga escala, como o sequenciamento de RNA (RNA-seq), permitindo observar alterações na expressão de milhares de genes após a exposição dos fungos ao medicamento. Essas mudanças sugerem um desequilíbrio metabólico capaz de comprometer o crescimento e a proliferação dos microrganismos.
Estresse celular dificulta adaptação dos fungos
Outro achado importante da pesquisa foi a identificação de uma intensa resposta de estresse nas células fúngicas expostas à sertralina.
Os experimentos apontaram aumento da produção de espécies reativas de oxigênio, moléculas associadas ao estresse oxidativo, além da ativação de mecanismos celulares relacionados à autofagia, processo responsável pela degradação e reciclagem de componentes danificados.
Embora essas respostas representem tentativas naturais de adaptação dos fungos, os pesquisadores observaram que, sob exposição contínua ao medicamento, esses mecanismos deixam de ser suficientes para manter a sobrevivência celular, favorecendo a redução da atividade dos microrganismos.
Resultados envolvem diferentes espécies de fungos
As investigações incluíram fungos responsáveis por infecções de relevância médica, entre eles Candida auris, Candida albicans, Cryptococcus neoformans, Aspergillus fumigatus e Trichophyton rubrum.
Esses microrganismos estão associados a infecções que podem variar desde doenças superficiais até quadros invasivos potencialmente graves, principalmente em pessoas imunossuprimidas, hospitalizadas ou portadoras de doenças crônicas. O aumento da resistência aos antifúngicos disponíveis é considerado um desafio crescente para a saúde pública mundial.
Potencial terapêutico ainda depende de novas etapas
Além da atividade observada quando utilizada isoladamente, a sertralina também apresentou resultados promissores quando combinada com antifúngicos já empregados na prática clínica, demonstrando potencial para reduzir a formação de biofilmes — estruturas que aumentam a resistência dos fungos aos tratamentos.
Apesar dos resultados considerados relevantes, os pesquisadores ressaltam que a utilização da sertralina como antifúngico ainda não faz parte da prática clínica. Antes de qualquer aplicação em pacientes, serão necessários estudos adicionais para confirmar sua eficácia, definir doses apropriadas e avaliar sua segurança em diferentes contextos terapêuticos.
Os autores destacam que o avanço amplia o conhecimento sobre a biologia dos fungos e pode contribuir para o desenvolvimento de futuras estratégias terapêuticas, especialmente diante do crescimento das infecções fúngicas resistentes observadas em diversos países.