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13 de Oct de 2026 • 10 min de leitura

O que o caso de Faustão ensina sobre o transplante de coração no Brasil?

O que o caso de Faustão ensina sobre o transplante de coração no Brasil?
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O transplante de coração realizado pelo apresentador Fausto Silva, o Faustão, chamou a atenção do público para um tema que ainda gera muitas dúvidas: quem pode receber um novo coração e como essa decisão é tomada? O caso também ajuda a entender que o transplante não é indicado apenas quando o coração está “fraco”, mas principalmente quando o paciente apresenta insuficiência cardíaca avançada e outras formas de tratamento já não oferecem uma perspectiva razoável de sobrevida e qualidade de vida. “Portanto, não é simplesmente ter um coração ‘fraco’ que determina a indicação. Antes do transplante, procuramos ter certeza de que foram utilizadas, sempre que possível, as melhores alternativas disponíveis, como medicamentos, dispositivos implantáveis, intervenções por cateter ou cirurgias convencionais”, explica o professor Alexandre Siciliano, membro da Academia Nacional de Medicina.

Antes de indicar o procedimento, os médicos fazem uma avaliação ampla do paciente. São analisados o coração e órgãos como pulmões, rins e fígado, além da presença de infecções, câncer e outros fatores que possam interferir no resultado. A condição nutricional, psicológica e social também entra nessa avaliação. “O transplante não termina na operação: ele exige acompanhamento e uso rigoroso de medicamentos pelo resto da vida.” Outro ponto importante é entender que não existe uma simples ordem de chegada para receber um coração. “O Sistema Nacional de Transplantes considera, além do tempo de espera, critérios como compatibilidade sanguínea, características do doador e do receptor e, principalmente, a gravidade e a urgência clínica”, explica o professor Alexandre Siciliano, membro da Academia Nacional de Medicina.

Os números mostram o tamanho do desafio. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes de 2025, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, foram realizados 427 transplantes cardíacos no Brasil naquele ano. Mas, segundo Professor Alexandre Siciliano, a lista oficial não mostra toda a necessidade do país. Há pacientes que poderiam ser avaliados para um transplante ou outras terapias avançadas, mas que não chegam a um centro especializado. “Minha percepção, ao longo de anos trabalhando com insuficiência cardíaca avançada e transplante, é que existe no Brasil uma população importante de pacientes potencialmente elegíveis que sequer chega a ser avaliada por um centro transplantador.”, menciona Professor Alexandre.

A desigualdade entre as regiões também pesa nesse cenário. Para que um coração chegue ao paciente, é preciso que toda uma cadeia funcione: identificação do doador, diagnóstico da morte encefálica, autorização da família, equipes preparadas e transporte adequado. “E talvez esse seja um ponto fundamental: não basta haver um potencial doador. É necessário transformar a possibilidade de doação em um órgão efetivamente transplantado.” O tempo também conta. “Em um país continental como o Brasil, tempo e distância também determinam quantos corações conseguimos efetivamente transplantar.”

A medicina, porém, começa a encontrar novas formas de ampliar essas possibilidades. Tecnologias de perfusão mecânica podem ajudar a preservar o coração durante o transporte e ampliar as distâncias de captação. Também existem pesquisas com doadores após morte circulatória, novas formas de acompanhar a rejeição do órgão e estudos sobre xenotransplante, com órgãos de animais geneticamente modificados. “Os avanços recentes são muito interessantes justamente porque estão começando a modificar algumas das fronteiras tradicionais do transplante.” Ainda são caminhos em desenvolvimento, mas mostram como a área vem avançando, explica o professor Alexandre.

O caso de Faustão, no fim, ajuda a lembrar que um transplante é muito mais do que uma cirurgia. É a combinação de avaliação médica, organização, tecnologia, logística e, principalmente, doação. “O maior avanço do transplante cardíaco continua sendo transformar uma situação em que havia pouca perspectiva de sobrevivência em anos e muitas vezes décadas de vida com qualidade.” E existe ainda uma dimensão humana que nenhuma tecnologia substitui: “E há algo profundamente humano nisso: para que uma pessoa possa recomeçar, outra família, em um dos momentos mais difíceis de sua vida, precisou compreender e autorizar a doação.”, conclui o professor Alexandre Siciliano.

Sobre ANM:

Fundada em 1829, a Academia Nacional de Medicina é uma das mais tradicionais instituições científicas do Brasil, dedicada ao avanço da medicina, da saúde pública e das ciências afins. Promove debates, cursos, congressos e premiações, contribuindo para o desenvolvimento científico e para a orientação de políticas de saúde no país.