15 de Oct de 2026 • 10 min de leitura
O elo entre a boca e o coração: Doença silenciosa na gengiva afeta mais de 1 bilhão de pessoas e eleva risco cardíaco
Ela costuma começar de forma discreta: uma gengiva que sangra ao escovar os dentes, um vermelhão que vai e volta, um mau hálito que não passa. São sinais fáceis de ignorar e é justamente por isso que a periodontite, forma mais avançada da doença gengival, se tornou uma das enfermidades crônicas mais prevalentes do planeta. Estimativas do estudo Global Burden of Disease apontam que a forma grave da doença atinge mais de 1 bilhão de pessoas, cerca de 19% dos adultos no mundo. Nos últimos anos, porém, o que mais tem chamado a atenção da comunidade científica não é apenas o tamanho do problema, mas para onde ele pode apontar: o coração.
A periodontite é uma inflamação crônica dos tecidos que sustentam os dentes, provocada pelo acúmulo de bactérias na região da gengiva. Quando não tratada, evolui de uma gengivite, que é o estágio inicial e reversível, para um quadro que destrói osso e tecido de suporte, tornando-se uma das principais causas de perda dentária na vida adulta. O problema é que, na maior parte dos casos, ela avança sem dor. “A boca não é um compartimento isolado do corpo. Quando uma gengiva inflama e sangra, existe uma porta aberta por onde bactérias e substâncias inflamatórias podem alcançar a corrente sanguínea e é aí que o problema deixa de ser apenas odontológico”, explica Carla Sarni, CEO e cirurgião dentista da Sorridents.
O elo com o coração está no centro de um consenso publicado pela European Federation of Periodontology (EFP) em parceria com a World Heart Federation. Segundo o documento, há evidência epidemiológica consistente de que pessoas com periodontite apresentam risco aumentado de doença cardiovascular aterosclerótica (como infarto e AVC) e esse risco se mantém mesmo quando se descontam fatores tradicionais, como tabagismo, colesterol e pressão alta. A explicação mais aceita passa pela inflamação. Bactérias presentes na gengiva doente podem cair na corrente sanguínea e disparar uma resposta inflamatória em todo o organismo, elevando marcadores como a proteína C reativa e favorecendo a formação de placas nas artérias. É um mecanismo silencioso, que ajuda a entender por que uma doença tão comum ganhou espaço na agenda dos cardiologistas.
Os especialistas, no entanto, fazem questão de marcar o limite do que a ciência afirma. Não se trata de dizer que a doença da gengiva “causa” um infarto, mas de reconhecê-la como mais um fator de risco e, diferentemente da idade ou da genética, um fator que pode ser controlado. “O ponto mais importante é entender que estamos falando de um fator de risco que pode ser controlado. Cuidar da saúde da gengiva não substitui o acompanhamento cardiológico, mas soma a ele”, afirma Carla.
Talvez o traço mais perigoso da periodontite seja o silêncio. Como costuma não provocar dor até estágios avançados, muita gente só descobre o problema quando já há mobilidade dos dentes ou retração da gengiva. Entre os sinais que merecem atenção estão sangramento ao escovar ou usar o fio dental, gengivas inchadas ou avermelhadas, mau hálito persistente, retração gengival e a sensação de dentes “amolecendo”.
“A periodontite é traiçoeira porque, na maioria dos casos, não dói. Muita gente só descobre quando o quadro já está avançado. Por isso a consulta de rotina é tão importante: é nela que o dentista identifica a inflamação antes de ela cobrar um preço mais alto”, diz Carla.
A boa notícia é que a prevenção é acessível e conhecida. Consultas odontológicas de rotina e limpezas profissionais periódicas permitem flagrar a inflamação no início; em casa, a escovação correta e o uso diário do fio dental controlam o acúmulo de bactérias. Como boca e coração compartilham fatores de risco, hábitos que já protegem o sistema cardiovascular, não fumar, manter uma alimentação equilibrada e controlar o diabetes, também jogam a favor da saúde bucal.
No fim, a mensagem que a ciência vem reforçando é simples: cuidar da boca é parte de cuidar do corpo inteiro. E, nesse cálculo, a visita ao dentista deixou de ser apenas uma questão de sorriso para se tornar, também, um gesto de cuidado com o coração.